Sinopse: Em tradução livre, Thereza Christina Rocque da Motta manteve o clima amoroso
dos sonetos, apresentando, em português, um Shakespeare gostoso de se ler.
Após 390 anos de sua morte (1616-2006), a tradutora faz uma homenagem ao
Bardo, escolhendo 44 dos 154 sonetos, descobrindo rimas ocasionais, sem se
preocupar com a formalidade, acreditando que o ritmo das palavras produz o
efeito certo no poema.
Orelha: A PROPÓSITO DA TRADUÇÃO
Thereza Christina Rocque da Motta
Escolhi um a um os 44 sonetos de Shakespeare que traduzi para este livro. Eu
tinha me proposto inicialmente a escolher 22, apenas para mostrar a minha
forma de traduzi-los, porém outros sonetos se somaram aos primeiros e, agora,
com estes, chego ao limite que considero um volume razoável para um livro de
poemas. E encerro nos 44, porque quero que possam ser todos lidos por
qualquer pessoa, principalmente as que não estejam habituadas a ler poesia.
A minha proposta caminha em sentido contrário aos conceitos de tradução dos
sonetos de Shakespeare, pelo que posso ver em outras publicações, ao
dispensar a métrica e a rima do soneto inglês original. Preferi perder o
soneto, mas salvar o poema. Além disso, nunca estudei tanto o Bardo para
descer a profundidades literárias formais. Minha sensibilidade, no entanto,
há muito pedia um novo modo de escrevê-los que eu apenas não sabia como
iniciar. Porém, uma vez iniciado, segui até o fim do meu propósito, mesmo
alegando ignorância na matéria shakespeariana.
A força do que Shakespeare pôs em seus sonetos transcende a formalidade, pois
hoje é impossível dizer tudo o que ele colocou sob esta forma em português.
Os versos devem revelar poesia e não apresentar um poema encarcerado. Há
sonetos que, se tivesse seguido a sua tradução literal ou acompanhado a
métrica e a rima, eu não teria chegado ao mesmo resultado.
Muitas vezes tive de interpretar o que Shakespeare quis dizer, ou eliminar do
verso o que não fosse importante em português, pois ao traduzir fazemos uma
escolha de sentido e relevância.
No Soneto 43, por exemplo, o uso de "pálpebras" no lugar de "sightless eyes",
ou seja, "olhos que não vêem" por estarem fechados durante o sono, foi uma
interpretação que fiz em termos formais, pois "eyes", no caso, estão sob as
pálpebras e, por estarem fechados, os olhos não podem ver, e é justamente
sobre as pálpebras que se projetam os sonhos. Bem como a expressão
"dead night", que literalmente significa "noite morta", que preferi usar "na
calada da noite", em vez de optar pelo seu sentido literal:
When in dead night thy fair imperfect shade
Through heavy sleep on sightless eyes doth stay?
All days are nights to see, till I see thee,
And nights, bright days, when dreams do show thee me.
Quando na calada da noite tua sombra bela e imperfeita
Permanece sob minhas pálpebras durante o sono?
Todos os dias são noites até que eu te veja,
E as noites, dias claros, ao te mostrar em meus sonhos.
Realmente, a imagem é belíssima, mas não me preocupei como outros tradutores
resolveram isto. Já li traduções formais que parecem tão desconfortáveis que
chegam a perder todo o sentido. É claro que empresto o meu modo de escrever
aos sonetos, a minha forma de dizer a mesma coisa, e traduzir não é senão
isto, pelo menos, como eu entendo. Mesmo em prosa, transcrevo como
costumamos dizer em português. Não traduzo nada literalmente a não ser que
tenha o mesmo sentido e seja assim que digamos. Há vezes que coincidem,
outras são diametralmente opostas. Sou tradutora há mais de vinte anos, mas
só cheguei a este modo de traduzir com o tempo e o exercício constante, e a
interpretação sempre foi uma característica ao buscar o que estava sob a capa
formal da palavra.
Ao mostrar o que vinha traduzindo, muitos dos que leram os sonetos me
incentivaram a continuar, dizendo-me que finalmente entendiam o que
Shakespeare escrevera, que não haviam compreendido em outras traduções.
Justamente em prol da compreensão dos sonetos de um dos poetas mais
controversos e decantados de todos os tempos, que me pus a traduzi-los do
modo como eu os sentia e como poderiam ser escritos em português, sem me
preocupar em enformá-los em nenhum molde, deixando apenas aflorar a beleza
contida em seus versos.
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