Sinopse: "Hüzün é uma palavra turca sem tradução possível, sugere umam melancolia
coletiva que fala de um passado poderoso e múltiplo.
A melodia que sai dos minaretes convocando o fiel, as paredes rasuradas dos
mosteiros, a atmosfera quieta da Capadócia."
As peças monumentais nas quais Vergara recorta e entrelaça várias fotografias
constituindo um mosaico de sensações que se precipitam sobre o espectador
refletem formalmente a experiência de uma cultura em que camadas de
visualidade se sobrepõem, se enfrentam e se misturam continuamente. É
interessante percebermos que, diante de encontros poéticos específicos, sua
obra assume novos processos de formalização. Exemplos desta necessidade de
adequação do vocabulário plástico se mostram com seu mergulho na fotografia
na década de 1970 para apreender o êxtase carnavalesco, assim como o
deslocamento e ampliação destas maquetes/colagens fotográficas no anseio de
traduzir uma vertigem sensorial, em que camadas de experiência vão se
sobrepondo como se fora um palimpsesto visual. Assim como o mergulho na
Turquia foi feito desprovido de um projeto definido, tudo se constituindo no
enfrentamento curioso do olhar perante o desconhecido, o partido curatorial
desta exposição pressupõe uma liberdade de improviso, movida pelo desejo de
explorar acontecimentos poéticos inesperados, em que acaso e intenção
caminham irmanados. O fascínio da Turquia é sua overdose de sentido, uma
presença acachapante de cores, texturas, cheiros, compondo um imaginário
incendiado de vibração, ao mesmo tempo espiritual e sensual, que não nos
deixa aptos à interpretação.
A exasperação sensorial, as muitas tonalidades afetivas e cromáticas que se
misturam em mosaicos, lenços, tapetes e pigmentos, revela o outro lado do
espírito, o lado exterior, tão mais vibrante nas culturas orientais, nas
quais o espírito é sensualidade e a potência decorativa habita o espaço
sagrado do templo. O teto da Mesquita Azul com seus mosaicos de seda mistura-
se ao chão de tapetes ajardinados, acolhendo o fiel em uma unidade decorativa
de alta intensidade espiritual. Agrega-se a isso a paisagem sonora que se
deixa revelar no canto sagrado do Muezin, que faz da palavra do Profeta uma
música de elevação e consagração. Música que integra a instalação de Vergara
presente nesta exposição. Uma imersão dentro de quatro telas de projeção, com
imagem e som misturando-se em busca da experiência do templo, ou melhor, dos
vários templos vividos em nossa passagem pela Turquia - a Mesquita, os
Mosteiros Cristãos Primitivos, a paisagem de pedra da Capadócia, o Bósforo. A
água e o vento do Bósforo fazem de Istambul o ponto de passagem entre
ocidente e oriente, entre um passado esfacelado na memória e um futuro aberto
de possibilidades, O que se ouve musicalmente na Turquia é parte desta
potência apontando para o ainda não vivido.
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